domingo, 21 de abril de 2013

Estratégias de conservação – Parte 1


 Tentámos, no breve e sintético trajeto pela problemática da biodiversidade que neste blog executámos, traçar um quadro a propósito das vertentes propostas, o qual teve como metodologia do discurso e da exposição não o repetir exaustivo da teoria nem a estrita colagem a uma lógica formal e rigida. Priveligiámos assim, e em função do meio e veiculo para que fomos desafiados, privilegiar aqui e ali o exercicio (forçosamente sintético) da reflexão sobre alguns dos aspetos que nos parecem relevar neste âmbito temático, e, sobre os quais também nos pareceu ser interessante iluminar de forma mais intensa. Assim, e por exemplo, no anterior tema lançámos pontes para a temática conservação da biodiversidade relevando a complexidade que lhe está subjacente, fazendo apelo do caso e significado da floresta, no âmbito da promoção das ameças à biodiversidade (segundo o conceito de promotores de alterações à biodiversidade de Proença et al (2009)). Este exercicio, que assumimos, tem sido suportado em algumas noções, que passo a indicar: 

 -O conceito de biodiversidade não é ainda hoje percebido uniformemente, como por exemplo refere Araújo (1998, p. 2); 

 -O valor da biodiversidade não se limita ao valor dos serviços ecológicos que providencia, e à sua importância nos serviços ecossistémicos, dos quais (também) depende o homem, não devendo, por isso, ser analisado numa perspetiva exclusivamente antropocêntica (nomeadamente na sua dimensão económica). A biodiversidade é um conjunto de valores, conforme escreve Araújo (1998) “ ao conceito de biodiversidade não está associado um valor, mas sim um conjunto diversificado de valores com carcteristicas diferentes, por vezes, contraditórias”; 

-As ameaças relevantes à biodiversidade, na atualidade, têm o seu foro na ação antrópica direta ou indireta, em função disto, e, para que deixem de o ser apenas parece restar uma solução – a alteração dos comportamentos do homem na sua relação com a natureza. 

Serve esta breve introdução para, numa primeira abordagem ao tema, procurarmos situar, no esteio da nossa reflexão continuada, as estratégias de conservação. Com efeito, e antes de procedermos a uma exposição teóricamente mais referenciada e sustentada, que aqui cumpre elaborar no sentido de expor o que a nivel mundial, regional e local se apresenta como realidade, queremos relevar o fato de as estratégias de conservação apontarem as suas vias de implementação através da modificação dos comportamentos (eficaz sobretudo quando vertida em documentos legais como por exemplo entre nós a Lei de Bases do Ambiente que adota, potencia e promove a proteção da biodiversidade ao reconhecer o largo espetro da sua importância e valores – cfr o artigo 4º, alinea m), elas são o reflexo da necessidade de limitação da ação antrópica no escopo da atenuação ou erradicação das ameaças. 
O estado de preocupante delapidação do património mundial genético e de espécies de vida a que se assiste, com tradução dramática na afirmação contida no Millennium Ecosystem Assessment (MEA, 2005, p.3): “Over the past few hundred years, humans have increased species extinction rates by as much as 1,000 times background rates that were typical over Earth’s history.”, ameaça não só a vida do homem mas também o seu hodierno modo de vida. Não podemos ignorar que é também pela via sócio económica (e portanto também pela politica) que a problemática da perda de biodiversidade tem sido crescentemente alvo de atenção, preocupação e ação. Parece-me não ser desprovido de sentido que a problemática da perda de biodiversidade venha sendo frequente introduzida através, e no âmbito, do Desenvolvimento Sustentável… De qualquer das formas, as estratégias e políticas de conservação são os instrumentos possíveis para, no atual cenário global, se tentar parar o fenómeno da perda de biodiversidade, malgrado muitas das metas e resultados a que se propõem teimem em deslizar, inquietantemente, para um futuro cada vez mais distante, encurtando o tempo disponível para a solução.


 -Porque são necessárias estratégias de conservação? Veja o gráfico
  
   

  Espécies mais numerosas (gráfico à esquerda), à direita as ameaçadas e extintas – fonte: CBD (Convention on Biological Diversity - www.cbd.int) 

 Continua na parte 2 … 

Bibliografia 

-Araújo M., (1998),” Avaliação da biodiversidade em conservação”, Silva Lusitana, vol.6,nº1.pp. 19-40. 
-Proença, V. et al. (2009), Biodiversidade in "Ecossistemas e Bem-estar humano - Avaliação para Portugal do Millennium EcosystemAssessment" Escolar Editora 
-Millennium Ecosystem Assessment (MEA) (2005), “Ecosystems and Human Well-being: Biodiversity Synthesis, Washington”, D.C., World Resources Institute.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

IF A TREE FALLS

aidnature.org from aidnature.org on Vimeo.

Uma mensagem sobre a conservação da biodiversidade . protagonista: A floresta

Conserve Wildlife, Conserve Biodiversity. from wrs_education on Vimeo.

Ameaças à biodversidade – um trajeto que termina na floresta 


 A perda de biodiversidade é um fato incontornável dos nossos dias. Segundo os dados disponibilizados por CDB (2010) e referenciados a partir de 2009, atingimos um ponto em que, a partir de um universo de 47.677 espécies consideradas, 36 % delas se encontram assinaladas como ameaçadas de extinção, destacando-se o dado expressivo traduzido por de entre as 12.055 espécies de plantas avaliadas 70% se encontrarem nessa situação. 

 Podendo o conceito de biodiversidade ser tão abrangente, que compreende no seu sentido mais lato toda a biosfera, conforme se pode extrair de MA(2005), é facilmente admissível que no seio de uma tão grande complexidade e interdependência sejam múltiplos os fenómenos, e suas origens, que lhe determinem alterações (quer sejam de quantidade ou variedade) . É no entanto, no campo da ação humana que se situam as hodiernas ameaças. Embora na consciência deste fato, não  visamos   afirmar a alteração da biodiversidade, nomeadamente a sua redução, como motivada exclusivamente por causas antropogénicas. Ao longo da história do nosso planeta encontramos evidências de alterações neste domínio provocadas por outro tipo de causas, nomeada e principalmente as naturais (evolução das espécies, cataclismos naturais, alterações climáticas…), mas delas não nos ocuparemos neste espaço e agora. 
 Assim, assinalaremos como ameaças mais relevantes à biodiversidade nos nossos dias as Alterações Climáticas, as alterações dos habitats e ecossistemas, a poluição, a sobre exploração dos recursos naturais e o ordenamento do uso dos solos (a que se pode associar o fenómeno da dominação por espécies invasoras). As ameaças à Biodiversidade são no fundo alterações (negativas) do estado da biodiversidade, radicadas na ação antrópica contida naquilo a que Proença et al (2009) denomina como os promotores de alterações à biodiversidade, e que, podemos definir e sintetizar (de forma muito liberal e lata) como tipologias de atuação humana causadoras do fenómeno (Como medir a Biodiversidade ? Segundo Proença et al (2009): O modo mais comum de medir biodiversidade assenta na contabilização da variedade de tipos diferentes, seja ao nível genético, de espécies, ou de outro nível taxonómico). 

 Referindo o caso de Portugal aquele autor indica a floresta como sendo um desses promotores, no que à primeira vista poderia parecer um contra senso sobretudo se fizermos apelo àquilo que o conhecimento científico nos diz sobre o papel e a relevância da floresta em variadíssimos contextos incluindo o da biodiversidade, e que, por exemplo nos é patente nas palavras de Klenner et al (2009): “Inaddition to biodiversity conservation, forest ecosystems supply a wide range of commodities sought by an expanding human population, including structural materials, fuels, and medicines, along with a wide range of critical ecosystem services including nutrient cycling, climate regulation, maintaining water balances and carbon sequestration.”
 Convém , este exemplo, à chamada de atenção que, penso, se deve fazer a propósito da necessidade de caraterização fina e precisa das ameaças, por forma a convergir numa abordagem científica, com as valias futuras que em termos de problematização se podem antecipar (outros exemplos seriam passíveis de apresentação como por exemplo o do fogo, também citado pelo autor e abordado pelas duas vertentes). 
 Para que se esclareça a perspetiva do autor (Proença et al, 2009) direi que ela se refere à floresta industrial, a qual recorre a espécies de elevada rendibilidade e produção (como o eucalipto, a propósito do qual, e da sua capacidade de preservação da biodiversidade comparativamente à floresta natural escreve Cancela et al (2012) nas suas conclusões: we favor protection and,where feasible, restoration of native forests over managing eucalypt plantations for biodiversity, in order to preserve the rich and distinct community that native forests harbor ) mas que pela natureza monocultural intensiva do seu plantio e, ainda pela natureza exótica espécies introduzidas são criadas importantes ruturas com os ecossistemas pré-existentes, implicando a diminuição do número, variedade e quantidades das espécies (sendo tão mais relevante nos casos em que se substituiu floresta autóctone por este tipo de monocultura florestal intensiva - sobre a importância da floresta autóctone na biodiversidade, numa novel abordagem de gestão florestal [Back to the Nature], indico o trabalho de Gamborg e Larsen (2003), ou na perspetiva da gestão florestal sustentável em Sample (2005) ). 

 Com este exemplo da floresta face à biodiversidade em 2 vertentes distintas se lançam as pontes para a temática que se seguirá: a da conservação da biodiversidade e das estratégias para atingir esse objetivo. E, são lançadas na percepção de um contexto de complexidade da problemática que requer não só uma sólida fundamentação teórica como ainda um aturado conhecimento dos mecanismos inerentes aos ecossistemas que condicionam os habitats em que as várias espécies coexistem, bem como das suas cambiantes, muitas vezes subtis, que podem alterar de forma dramática os equilíbrios necessários à existência. 

 Bibliografia:
Cancela M.C, Rubido-Bará M., Van Etten E.J.B. (2012), “Do eucalypt plantations provide habitat for native forest biodiversity?”, 
Forest Ecology and Management, 270, pp 153-162 

Gamborg C.,Larsen J.B. (2003), ”Back to nature’—a sustainable future for forestry?”, Forest Ecology and Management 179. pp 559–571 

Millennium Ecosystem Assessment (MA) (2005), “Ecosystems and Human Well-being: Biodiversity Synthesis, Washington”, D.C., World Resources Institute. 

 Proença, V. et al. (2009), Biodiversidade in "Ecossistemas e Bem-estar humano - Avaliação para Portugal do Millennium Ecosystem Assessment" Escolar Editora 

Klenner W., Arsenault ., Brockerhoff E.G., Vyse A., (2009)," Biodiversity in forest ecosystems and landscapes: A conference to discuss future directions in biodiversity management for sustainable forestry", Forest Ecology and Management 258S, S1–S4 

Sample V.A. (2008), “Sustainable Forestry and Biodiversity Conservation: Toward a New Consensus” Secretariado da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) (2010) “Panorama da Biodiversidade Global 3”



domingo, 7 de abril de 2013


Biodiversidade, valores e valorização
A complexa interligação e interdependência da vida no nosso planeta releva o papel de cada um dos elementos e formas que a compõem.
Como procurei iniciar no post anterior intitulado “A importância da Biodiversidade“ da sua existência e conservação depende em muito a presença humana na face do planeta. Os valores que subjazem à sua relação com o homem tem tendencialmente vindo a aglutinar-se em torno de uma perspetiva que se destaca pela proeminência de uma visão economicista, isto é assente, numa construção fundada na valorização económica dos serviços que a biodiversidade viabiliza nos vários ecossistemas. Tal podemos constatar através da leitura do que consta no Millennium Ecosystem Assessment (MEA,2005). Do meu ponto de vista, é irónico que, na atualidade, a defesa da Biodiversidade se faça com apelo à sua valorização económica, lançando no fundo mão dos valores que também estão na origem das ameaças e problemática da sua conservação ou, mesmo, subsistência.

Nesta breve reflexão, que apenas se pretende como ponto de partida para um mais esclarecido, completo e aprofundado olhar sobre os valores associados à Biodiversidade, gostariamos, desde logo, retomar o seu desenvolvimento através da dupla vertente à luz da qual a Biodiversidade vem sendo perspetivada e que se articula, por um lado, com a sua inegável (e já referida) importância económica revelada na figura e forma dos serviços (serviços ambientais, ecológicos, e outros geradores de recursos naturais diretamente utilizados pelo homem e essenciais à vida das suas sociedades – providenciando alimentos, medicamentos,etc), e, por outro lado, com a fundamentação ética que repousa no âmbito mais geral da relação homem/natureza, particularmente no particular confronto entre as visões eco e antropocêntricas.
A Biodiversidade é, assim, hoje encarada como acima exposto, e em Christie et al (2006) podemos ver confirmado, sobretudo no âmbito da valorização económica (tendo, inclusivé, reflexos na prática conservacionista). Este fato vem implicando uma atitude marcadamente antropocêntrica que, ao invés do apelo à valorização intrinseca da natureza (e em particular de todos os seres viventes) parece estar constantemente e a cada passo, em função do que concebe como denvolvimento económico, a enunciar a pergunta; “Ainda precisamos da natureza” ?   
Bibliografia:
-Millennium Ecosystem Assessment (MEA) 2005, In Ecosystems and Human Well-being Sysnthesys. World Resources Institute, pp.1-41
-Christie M.,Hanley N.,Warren J.,Murphy K.,Wright R.,Hyde T. 2006, Valuing the diversity of biodiversity, Ecological Economics, 58, pp. 304-317  

Recursos:
Video "Learning to protect biodiversity