Estratégias de conservação – Parte 1
Tentámos, no breve e sintético trajeto pela problemática da biodiversidade que neste blog executámos, traçar um quadro a propósito das vertentes propostas, o qual teve como metodologia do discurso e da exposição não o repetir exaustivo da teoria nem a estrita colagem a uma lógica formal e rigida. Priveligiámos assim, e em função do meio e veiculo para que fomos desafiados, privilegiar aqui e ali o exercicio (forçosamente sintético) da reflexão sobre alguns dos aspetos que nos parecem relevar neste âmbito temático, e, sobre os quais também nos pareceu ser interessante iluminar de forma mais intensa. Assim, e por exemplo, no anterior tema lançámos pontes para a temática conservação da biodiversidade relevando a complexidade que lhe está subjacente, fazendo apelo do caso e significado da floresta, no âmbito da promoção das ameças à biodiversidade (segundo o conceito de promotores de alterações à biodiversidade de Proença et al (2009)). Este exercicio, que assumimos, tem sido suportado em algumas noções, que passo a indicar:
-O conceito de biodiversidade não é ainda hoje percebido uniformemente, como por exemplo refere Araújo (1998, p. 2);
-O valor da biodiversidade não se limita ao valor dos serviços ecológicos que providencia, e à sua importância nos serviços ecossistémicos, dos quais (também) depende o homem, não devendo, por isso, ser analisado numa perspetiva exclusivamente antropocêntica (nomeadamente na sua dimensão económica). A biodiversidade é um conjunto de valores, conforme escreve Araújo (1998) “ ao conceito de biodiversidade não está associado um valor, mas sim um conjunto diversificado de valores com carcteristicas diferentes, por vezes, contraditórias”;
-As ameaças relevantes à biodiversidade, na atualidade, têm o seu foro na ação antrópica direta ou indireta, em função disto, e, para que deixem de o ser apenas parece restar uma solução – a alteração dos comportamentos do homem na sua relação com a natureza.
Serve esta breve introdução para, numa primeira abordagem ao tema, procurarmos situar, no esteio da nossa reflexão continuada, as estratégias de conservação. Com efeito, e antes de procedermos a uma exposição teóricamente mais referenciada e sustentada, que aqui cumpre elaborar no sentido de expor o que a nivel mundial, regional e local se apresenta como realidade, queremos relevar o fato de as estratégias de conservação apontarem as suas vias de implementação através da modificação dos comportamentos (eficaz sobretudo quando vertida em documentos legais como por exemplo entre nós a Lei de Bases do Ambiente que adota, potencia e promove a proteção da biodiversidade ao reconhecer o largo espetro da sua importância e valores – cfr o artigo 4º, alinea m), elas são o reflexo da necessidade de limitação da ação antrópica no escopo da atenuação ou erradicação das ameaças.
O estado de preocupante delapidação do património mundial genético e de espécies de vida a que se assiste, com tradução dramática na afirmação contida no Millennium Ecosystem Assessment (MEA, 2005, p.3): “Over the past few hundred years, humans have increased species extinction rates by as much as 1,000 times background rates that were typical over Earth’s history.”, ameaça não só a vida do homem mas também o seu hodierno modo de vida.
Não podemos ignorar que é também pela via sócio económica (e portanto também pela politica) que a problemática da perda de biodiversidade tem sido crescentemente alvo de atenção, preocupação e ação. Parece-me não ser desprovido de sentido que a problemática da perda de biodiversidade venha sendo frequente introduzida através, e no âmbito, do Desenvolvimento Sustentável…
De qualquer das formas, as estratégias e políticas de conservação são os instrumentos possíveis para, no atual cenário global, se tentar parar o fenómeno da perda de biodiversidade, malgrado muitas das metas e resultados a que se propõem teimem em deslizar, inquietantemente, para um futuro cada vez mais distante, encurtando o tempo disponível para a solução.
-Porque são necessárias estratégias de conservação? Veja o gráfico
Espécies mais numerosas (gráfico à esquerda), à direita as ameaçadas e extintas – fonte: CBD (Convention on Biological Diversity - www.cbd.int)
Continua na parte 2 …
Bibliografia
-Araújo M., (1998),” Avaliação da biodiversidade em conservação”, Silva Lusitana, vol.6,nº1.pp. 19-40.
-Proença, V. et al. (2009), Biodiversidade in "Ecossistemas e Bem-estar humano - Avaliação para Portugal do Millennium EcosystemAssessment" Escolar Editora
-Millennium Ecosystem Assessment (MEA) (2005), “Ecosystems and Human Well-being: Biodiversity Synthesis, Washington”, D.C., World Resources Institute.